“Abnegação do vosso amor” em 1 Tessalonicenses 1:3

“Lembrando-nos, sem cessar, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo.”

1. Tradição judaica

Na tradição judaica, o amor (ahaváh, אהבה) sempre foi considerado uma ação prática e não meramente um sentimento.

A Lei de Moisés enfatiza o amor como obediência a Deus e serviço ao próximo, especialmente ao estrangeiro, órfão e viúva.

Em Levítico 19:18, lemos o famoso mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Esse amor abnegado inclui sacrificar o interesse próprio em favor dos outros, refletindo o caráter de Deus, que é misericordioso e compassivo. No contexto judaico, o amor não é egoísta, mas altruísta e comprometido com o bem-estar do outro.

2. Contexto histórico

A igreja de Tessalônica era formada em um ambiente de hostilidade e perseguição. A abnegação do amor, nesse contexto, indicava que os cristãos estavam dispostos a colocar as necessidades dos outros acima das suas próprias, mesmo em meio a dificuldades.

Esse tipo de amor sacrificial era essencial para a sobrevivência e crescimento da comunidade cristã, pois enfrentavam oposição tanto das autoridades quanto das tradições religiosas locais.

Paulo está reconhecendo que o amor deles não era apenas emocional ou teórico, mas prático e expresso em atos de sacrifício.

3. Arqueológico

As evidências arqueológicas de Tessalônica mostram uma cidade multicultural e cheia de tensões sociais.

As cartas de Paulo sugerem que os cristãos daquela cidade se destacavam por seu amor prático e visível, em uma sociedade que frequentemente vivia em função dos próprios interesses e onde as classes mais ricas desprezavam os mais pobres.

A prática do amor abnegado, em um ambiente onde as pessoas se isolavam em suas próprias comunidades e tradições, tornava os cristãos diferentes, especialmente ao cuidarem uns dos outros e dos necessitados.

4. Cultural

Na cultura greco-romana, o conceito de amor era muitas vezes entendido de maneira egoísta, focado no prazer e nos interesses pessoais.

O amor altruísta e sacrificial era uma ideia estranha, especialmente quando significava sacrificar algo pessoal pelo bem de outra pessoa, sem receber algo em troca. No entanto, no cristianismo, esse amor era um reflexo direto do sacrifício de Cristo.

Esse contraste cultural tornava o amor cristão revolucionário, uma característica marcante que atraía muitos ao evangelho.

5. Linguagem usada

A palavra grega usada para “amor” aqui é ἀγάπη (agápē), que é um dos termos mais profundos e significativos para amor no Novo Testamento.

Agápē é o amor incondicional, o amor sacrificial que busca o bem do outro, independentemente das circunstâncias ou do que é recebido em troca.

“Abnegação” no grego carrega a ideia de “esforço, trabalho duro” (kopos), sugerindo que esse amor requer sacrifício, dedicação e esforço, mesmo quando não é fácil ou conveniente.

6. Temporal

Naquela época, os primeiros cristãos estavam vivendo em uma sociedade que muitas vezes marginalizava ou perseguia os seguidores de Cristo. Portanto, demonstrar um amor sacrificial era uma evidência poderosa da transformação que o evangelho produzia em suas vidas. Esse amor não era superficial, mas profundo e consistente, refletindo o sacrifício de Cristo na cruz, que também era o modelo para os crentes de todas as épocas.