Porque o nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em palavra, mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo e em plena convicção, como bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós.”

1. Tradição judaica

Na tradição judaica, a palavra de Deus sempre foi associada ao poder divino, manifestado de maneira visível e concreta. Por exemplo, no Gênesis 1, a criação do mundo ocorre através da palavra de Deus (“Disse Deus: Haja luz”). O conceito de que a palavra de Deus tem poder e é acompanhada de ação é profundamente enraizado nas Escrituras hebraicas. Além disso, os profetas eram mensageiros que não apenas falavam, mas viam as manifestações sobrenaturais do poder de Deus para confirmar Suas palavras.

Paulo, um fariseu que conhecia bem a tradição judaica, traz esse conceito ao cristianismo. Ele afirma que o evangelho não é apenas uma mensagem falada, mas uma mensagem acompanhada de demonstração do poder de Deus, uma continuidade da tradição onde a palavra de Deus sempre tem consequências práticas e poderosas no mundo.

2. Contexto Histórico

Quando Paulo fala que o evangelho chegou aos tessalonicenses “não somente em palavra, mas em poder, no Espírito Santo e em plena convicção”, ele está se referindo à forma como a mensagem foi recebida e vivenciada. No mundo greco-romano, muitas filosofias e religiões eram propagadas principalmente através da eloquência de palavras. Oradores e filósofos tinham grande influência pelo seu poder de persuasão verbal.

Paulo, no entanto, contrasta o evangelho com essas filosofias humanas, afirmando que sua pregação não era apenas persuasão humana, mas acompanhada de demonstrações de poder, sinais e transformação de vida através da ação do Espírito Santo. Em Atos 17:1-9, vemos que, ao pregar em Tessalônica, Paulo enfrentou grande resistência, mas a conversão de muitos foi claramente atribuída à obra sobrenatural de Deus.

3. Arqueológico

Tessalônica, como uma cidade próspera e cosmopolita, tinha acesso a diversas ideias e movimentos religiosos. Era uma cidade muito influenciada pela cultura helenística, onde a palavra, a retórica e a filosofia eram bastante valorizadas. No entanto, o fato de que o evangelho de Paulo chegou “em poder” indica que algo além de simples persuasão intelectual estava em jogo. Relatos bíblicos e históricos mostram que os primeiros cristãos frequentemente testemunhavam sinais e milagres, o que servia como um poderoso testemunho de que a mensagem de Cristo era verdadeira e diferente das filosofias e religiões populares da época.

4. Cultural

Culturalmente, os gregos davam muita importância à eloquência e ao discurso. Havia uma tradição de oratória sofisticada, onde a verdade era muitas vezes medida pela habilidade do orador de convencer seu público. Paulo, contudo, argumenta que o evangelho transcende essa abordagem, sendo mais do que uma “filosofia” nova. O evangelho é verdade divina, evidenciada não apenas por palavras convincentes, mas pela ação visível do poder de Deus e do Espírito Santo.

Essa “plena convicção” que Paulo menciona sugere que a mensagem não foi apenas aceita intelectualmente, mas impactou profundamente os corações dos ouvintes, transformando suas vidas de forma real e definitiva.

5. Linguagem Usada

A palavra “poder” aqui no grego é δύναμις (dynamis), que é frequentemente associada ao poder divino, à capacidade de realizar atos sobrenaturais ou milagrosos. No Novo Testamento, essa palavra é usada para descrever o poder de Deus que opera através do Espírito Santo, particularmente em relação a milagres e à capacitação para viver de maneira transformada.

A expressão “plena convicção” no grego é πληροφορία (plērophoria), que carrega a ideia de certeza completa ou uma convicção profunda e inabalável. Isso sugere que a mensagem do evangelho não foi recebida com dúvidas ou de maneira superficial, mas com uma confiança completa na verdade daquilo que foi pregado.